Bicho M

Projeto gráfico para o cartaz e programa do espetáculo "Bicho M".




A mulher em pêlo

A mulher antes do feminino. O espetáculo ‘Bicho M’ rejeita a construção social sob acomodações diversas para dar à luz a criatura pura e simples. Das entranhas rasgadas no palco, escaninho ideal da própria intimidade, nasce uma qualidade anterior às noções de gênero. A fêmea natural – estômago e sexo e nervos à flor da pele. A mulher em pêlo.

Não há, no texto assinado por Euler Lopes, uma razão dramática uniforme. O “eu” pronunciado pelo elenco sob a direção de Maicyra Leão parece ter sido fecundado num amálgama de experiências distintas, sob circunstâncias variadas. Diane Veloso, Jonathan Rodrigues e Elze Faccioli encarnam o mesmo animal ferido. Em cada momento do espetáculo, no entanto, uma situação diferente, uma reação inesperada.

Neste particular, a presença de um ator em cena amplia o enunciado. O deslocamento do suporte natural consagrado a um personagem feminino, aqui um homem negro, de barba na cara, reclama necessariamente a empatia da platéia. No desconforto, uma convocação à alteridade.

Segundo Maicyra, a maternidade é o gatilho responsável pela eclosão do conflito que move a montagem. Um tema delicado, negligenciado por um romantismo nocivo. Na vida e na arte. “Em nenhum momento tínhamos o intuito de chocar ou polemizar. Muito pelo contrário. Menos fora e mais dentro. Queríamos dar voz a uma visibilidade sufocada, entranhada no dia a dia do se descobrir mãe. Não apenas no sentido dos fantasmas internos vivenciados em suas particularidades, mas no sentido de um recalque social que apregoa à mulher a condição de felicidade inquestionável”.

‘Bicho M’ coloca o dedo na ferida, portanto. O lado B da maternidade e a condição feminina, muito além do sagrado.